Erva, daninha?
Vou te confessar uma coisa para quebrar logo esse gelo (mas fica entre nós, tá?): sou ruim de pesquisa. Hmm não pera, acho que sou preguiçoso de pesquisa. Enfim, não interessa a razão. O fato é que se uma pessoa quer se aventurar na escrita, em algum momento vai ter que reconhecer que as histórias não estão só dentro de sua cabecinha. Um mergulho nos livros, na internet, nas pessoas, nos lugares, é quase obrigatório.
Ciente disso e num estado de cansaço-maravilha, respirei fundo, ajeitei a cadeira e procurei no google: de onde vem o tufo de capim que sai entre as rachaduras da calçada.
Horas, semanas, anos antes, nas caminhadas pelas ruas, desviava o olhar para o chão. Da fenda, da fissura a grama-flor brotando desde os intestinos do concreto. O capim vingando no meio da calçada, a haste da flor amarela surgindo entre o cimento. Aí a pergunta: como aquilo veio acontecer?
Blogs, vídeos, sites explicam passo a passo como eliminar o mato do cimento: aplique vinagre, use água fervente, jogue sal, cubra com jornais. Olha, procurei, mas não encontrei um lugar que falasse por que o bendito do matinho nasce. Derrotado, levantei, fui à janela da sala e fiquei vendo um grupo de pessoas trabalhando no prédio novo que levantaram na frente. Um cara agachado, finalizava a calçada. Despejava o concreto e pegava logo a régua para nivelar. Chamou a atenção que o homem parecia mais concentrado no encarregado, que monitorava o trabalho, do que na mescla dar certo. Estranhei. Depois de alguns minutos, o homem, à espreita, aguardou uma distração do encarregado, e num movimento fulminante, tirou do bolso umas sementes e jogou-as no cimento. Levantou assobiando, avançou mais uns metros e repetiu a operação. Safado! Arregalei a surpresa.
Toda aquela semana fiquei grudado na janela vendo a pessoa regar as sementes no cimento fresco. Sempre discreto. Tomei nota dos horários de entrada e saída. Na sexta vou puxar conversa, pensei com a profunda certeza de que ele não ia me dar bola. Chegou o dia, me aproximei hesitante, ele estava no ponto de ônibus, cumprimentei e fui logo falando que havia visto colocar as sementes. Claro, ele desconversou, pegou o primeiro ônibus que passou, foi embora sem olhar para trás. Além de pesquisa, também sou ruim de estratégia.
Mas isso não me impediu de continuar enxerido na janela todo dia. A calçada estava quase pronta, também percebi que o homem das sementes mudou sua rotina, ao final do expediente já não ia mais ao ponto de ônibus onde eu o incomodei, além disso, sempre que saia da obra, virava o pescoço em todas direções para ter certeza que ninguém o seguia. Bufando refleti: se as sementes que ele coloca são as futuras ervas daninhas que vão surgir entre a calçada, então ele não é a única pessoa a semear; toda calçada de toda rua desta cidade tem capim surgindo do asfalto. Veio a ideia, peguei um papel, uma caneta e sentei na mesa cozinha.
A LIJE (Liga Independente dos Jardineiros Encobertos) está infiltrada em todo canteiro de obras. É uma rede de subversivos jardineiros do verde submerso que trabalham como “pedreiros” (especializados em calçadas e paredes) que reivindicam o direito a viver e à dignidade das mal chamadas ervas daninhas.
Criada ao mesmo tempo das primeiras construções, seus membros usam sementes especiais, espécies fortes e demoradas para germinar que, ao ver a luz pela primeira vez, meses e até anos após a obra ficar pronta, ninguém ousaria relacionar aqueles fios de clorofila com o pedreiro que operou por ali.
Imerso nesse delírio que inventava escutei umas risadas debochadas. As fiéis formigas que têm me acompanhado ao longo do isolamento dessa pandemia, se aglomeravam em torno às palavras que escrevia e rachavam o bico. Elevaram suas anteninhas e, num ato de misericórdia, me comunicaram a razão da zombaria:
Irmão, se liga: antes de nada, nada de jardineiros fantasiados de pedreiros. Para de ser maluco! Aquele matinho mínimo para seus olhos, é, na verdade, floresta; aliás nossa floresta. O capim grosso que brota entre as fendas das calçadas e paredes são, realmente, copas de árvores. Ô meu abençoado, pense, antes das suas paredes e ruas, já havia um mundo pulsando nesse terreno. A gente, carrapatos, caramujos, baratas, lagartas e outros insetos, ralamos por anos a fio para construir nossos lugares. Por coisas do destino VOCÊS decidiram construir suas moradias em cima das nossas. Pra nós tudo bem, dá pra dividir, mas também nunca pensamos em ir embora, se já estávamos aqui, por que íamos sair? Então aquilo que vocês veem lá de cima, na verdade é uma pontinha do nosso mundo.
Desconfiado, questionei o fato delas morarem aqui nesse apartamento; no terceiro andar, não tem matinho brotando de lugar nenhum. Elas riram de novo: cara como você vê o mundo pequeno; a gente vem aqui só para pegar as migalhas do bolo que você come de manhã, levamos para alimentar um fungo que temos no centro do formigueiro, é esse fungo que nós comemos. Também gostamos de sorver as gotas que descem da garrafa de melado de cana que tá do lado do fogão, mas a nossa floresta fica lá, nos locais que vocês chamam de ruas.
Na hora fiquei sem jeito. Depois de uns dias, caiu a ficha, agora tinha duas versões de um fato que desconhecia. E para acrescentar o lucro, descobri uma antiga organização que luta por diminutos pedaços de grama e, finalmente, bati um papo com as formigas que há tanto tempo dividem o apartamento comigo.
Pode ter sido semeada por jardineiros rebeldes ou construída internamente por insetos desde tempos imemoráveis, tanto faz, o negócio é que essa newsletter, as fotografias e vídeos que a acompanham são as ervas que nascem das minhas rachaduras. Compartilho para me encontrar com você, pessoa querida 🙃
Se quiser me contar quais são as ervas que nascem de você é só responder esse e-mail ou comentar, será lindo trocar uma ideia contigo.




Amei
Amei!!! Aqui em casa temos muitas florestas nas calçadas... agora não terei coragem de arrancá-las... kkkkk